Aos alunos da faixa etária intermédia eram concedidas algumas liberdades. Com o beneplácito de uma espécie de “Conselho de Tribunos”, os graduados, era consentida a possibilidade de arriscarem a participação em aventuras mais ou menos empolgantes. Por exemplo, o risco de “saltar o muro para ver um jogo de futebol do Glorioso” fazia parte das práticas afirmativas, sintoma de emancipação aceite na escala. Claro que, o relacionamento cordial que os mais antigos mantinham com os meus pais redundava na especial vigilância que sobre mim impendia. O mesmo é dizer que um qualquer deslize poderia acarretar consequências drásticas. Apesar dos condicionalismos, fui realizando o meu trajecto próprio, sobrevivendo ao estigma pejorativo do indesejável epíteto de “anjinho”.

vidamundialNos antípodas de um sistema educacional monolítico, faziam parte das preocupações formativas a componente lúdico-cultural, a começar nas infra-estruturas e a completar-se na concepção e realização de actividades e programas complementares diversificados. Cada duas Companhias de alunos dispunham de uma Sala de Leitura recheada de revistas periódicas, jornais diários e outras publicações. A ausência de ruído fazia dela um espaço de recolhimento privilegiado, só comparável à Capela Corpus Christi, nos claustros, onde além dos actos litúrgicos se realizavam reuniões dos alunos membros da Conferência de S. Vicente de Paulo.
Momentos de descontracção experimentavam-se na Sala de Jogos, onde se podia conversar, ouvir música, fazer jogos ou ver televisão extravasando com os desafios de futebol, até ao toque do recolher.

bailePassados quase 50 anos, estavam consignadas, como actualmente, actividades extra-curriculares de carácter cultural e desportivo. Com regularidade, realizavam-se eventos como ópera, concertos, peças de teatro, palestras ou encontros desportivos, especialmente de basquetebol e de voleibol, que tinham lugar no Ginásio da 1.ª Secção, depois do Jantar.
Para além dos muros que nos limitavam o espaço físico, compreendiam-se outras dimensões. A representatividade do Instituto no campo gimnodesportivo era algo que assumia particular importância e, com o primeiro sucesso, isto é, a primeira vitória numa competição, aprendemos o “Grito” conhecido por “Jacarezada”, símbolo de exaltação, testamento legado de ilustres pilões, transmitido às sucessivas gerações que é evocado em todos os momentos de celebração e cerimónias do IMPE.

medinaO “Jacaré” É o Dr. Henrique Medina Carreira, destacado personagem da sociedade portuguesa, reputado fiscalista que, à semelhança de outros notáveis pilões, aqui frequentou e concluiu um Curso díspar da sua área profissional de intervenção, no caso o Curso Médio de Electrotecnia e Máquinas.
Foi Comandante do Batalhão e guarda-redes titular da equipa de futebol de onze.
“Perdigão”, é o pseudónimo do Eng.º Civil Nicolau Matias, já falecido, o ponta de lança. Ambos foram alunos modelares e elementos chave da célebre equipa que infligiu 7-0 aos nossos arqui-rivais, o Colégio Militar, numa final do Campeonato Provincial de futebol da Mocidade Portuguesa.
ROBALOA Classe Especial de Ginástica criada em 1 de Junho de 1932 é a partir da Primavera de 1954, que sob a orientação do saudoso professor Robalo Gouveia inicia os decisivos passos que a conduziriam ao mais alto expoente, tornando-se por muitos anos o nosso ex-líbris. Internamente, suscitava as maiores curiosidade e admiração, pois para além do talento dos seus elementos, os treinos exibiam uma certa audácia e glamour, dado o risco associado ao grau de dificuldade de alguns exercícios que se realizavam em tronco nu, sobre o alcatrão da parada inferior da 1ª Secção. “Passeou” nos anos 50 e 60 toda a sua espectacularidade, quer em Portugal quer no estrangeiro, em simples demonstrações ou em Festivais de Competição. A ela se devem momentos da maior glória para os Pupilos do Exército.
candeiasNa segunda metade dos anos 80 é o Professor Hermenegildo Candeias cujo currículo de atleta regista, em 1960, o título de Campeão Nacional de Ginástica Aplicada, de 1ª categoria, quem aceita a responsabilidade dos destinos da Classe Especial, introduzindo um esquema de cunho pessoal que obteve elevado êxito nas exibições realizadas e nas sucessivas Gymnaestradas em que, honrosamente, tivemos oportunidade de participar, até à Gymnaestrada Mundial de 2003, que se realizou em Lisboa. Em reconhecimento da meritória carreira de Professor de Educação Física e da sua extraordinária dedicação à Classe Especial de Ginástica, o Professor Candeias viu o seu nome ser atribuído ao Pavilhão Gimnodesportivo Polivalente da 2.ª Secção.
Lembrei o cumprimento dos deveres e códigos do aluno, o sabor do sucesso escolar e das conquistas desportivas e o garboso desempenho em cerimónias militares, instrumentos convergentes da construção do nosso ideário e do compromisso com as nossas particulares tradições. Estes valores e atitudes compaginaram o estereótipo designado por “espírito de corpo dos Pilões”.
Numa nota de observações, por acreditar que muitos alunos e ex-alunos não terão ainda encontrado a origem de algumas peculiaridades, vem a propósito que foi na sequência da pergunta de uma jornalista ao Director em funções, quando há cerca de 8 anos realizava uma visita de reportagem, que na qualidade de ex-aluno fui chamado a descodificar o termo Pilões.

augustoDiasLançando mão dos recursos disponíveis, a “Associação dos Pupilos do Exército”, através de um dos enormes vultos, o Eng.ºAugusto Dias, a completar em breve 92 anos, muitos deles dedicados ao IMPE e à APE, obtive a informação esperada: Aquando da fundação, os alunos eram poucos e o espaço tão grande que resolveram chamar-lhe Pupilão, o “Casarão” onde viviam os Pupilos. Daí resultou que esses alunos passassem a ser Pupilões e, por redução, Pilões, designação que viria a tornar-se extensiva aos ex-alunos”.
De regresso ao tema lembrei que, a par do pendor eminentemente técnico da nossa formação se afirmava uma forte componente humanista. Vivia-se um regime aberto de relacionamento, que nos educou, tal como hoje, no reconhecimento, em cada pessoa, do respectivo valor intrínseco no quadro institucional estabelecido.

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