Apesar de ultrapassadas com sucesso, essas duas metas, sabíamos que desde sempre sonharam cruzar o meu destino com o Instituto Técnico Militar dos Pupilos do Exército. Tanto que meu pai usava a seguinte metáfora: – “O trunfo é espadas, por isso vais bem para uma escola que é obra do Exército”, que já me fazia adivinhar essa inevitabilidade.
Concorri e fui admitido. Por pouco nascia aqui.
À entrada, ninguém no universo dos alunos admitidos conhecia os Pupilos do Exército como eu. Aos 7 anos já desfrutava de total liberdade para aqui entrar e também já havia experimentado o castigo de suspensão do acesso às instalações que o Director me impôs, durante um mês, depois de ter fugido em pânico quando me mandou chamar porque, nas minhas constantes correrias, tinha pisado inadvertidamente algumas flores do jardim. Só aparentemente este “background” poderia traduzir algum à-vontade em termos de adaptação à nova realidade, porque efectivamente não foi assim. Falou mais alto a falta do amparo a que são habituados os filhos únicos. Senti, logo na primeira noite, o embate do regime austero que se vivia na época depois do toque de recolher. Na camarata, percebi o que é estar só no meio de tantos e, como muitos deles, instalou-se-me na garganta aquele nó característico de quando se engolem as lágrimas.
Era o início do meu primeiro ano lectivo, em Outubro de 1961, dois anos depois da reforma que reinstituiu o Curso Médio de Electrotecnia e Máquinas.

Nos dias que se seguiram, o toque de alvorada soava estridente às 6 horas. “– Logo a seguir, à voz do aluno graduado ouvia-se: – Todos de pé!!!”. Tratar da higiene, e fazer a cama era a sequência que, enquanto vestíamos a farda, antecedia a passagem do oficial de dia por volta das seis e vinte, para assegurar que todos estavam em condições de cumprir pontualmente o toque para o primeiro Estudo, às seis e meia.
Como que a colorir o cinzento dessa rotina diária sucediam episódios inesperados, a ponto de justificar a colagem a slogans do tipo: “Insólitos dos Pupilos do Exército”. Imagine-se, por exemplo, nas manhãs frias de Inverno, descobrir com espanto, um companheiro a sair da cama, já fardado e com o capote! Só não tinha as botas calçadas… Nem passava pelo balneário onde tomavam banho os alunos das 1ª e 2ª Companhias. Acabei de referir outro palco fértil de cenas caricatas. Porquê? Muitas vezes, contrariando os limites aceitáveis, o sistema de aquecimento de água avariava-se e o duche, que se esperava quente e confortável, lá tinha que se tomar frio.

Numa dessas manhãs, um dos inconformados gritou ao funcionário responsável: “Ó Senhor Girão, a água quente está fria”. Dos rostos fechados pela má disposição de quem é acordado às 6 da manhã explodiam gargalhadas que amenizavam o desconforto do duche que nem por isso deixava de ser frio.
Ao segundo toque do clarim, esperava-nos o tal Estudo, em jejum, porque, dizia-se, “pela fresca melhor se assimilam as matérias”. O toque para o pequeno-almoço, o mais esperado, soava às sete e meia. Hora e meia depois da alvorada! Os primeiros contornos do ordenamento disciplinar traduziam-se maioritariamente em situações adversas. O engenho e a necessidade de as contornar foram móbil para o entendimento de conceitos como a camaradagem e a partilha. Cada um precisava do outro e, não raras vezes, alguns, ou mesmo todos, eram penalizados pelo incumprimento das regras por apenas um de nós. Tomara parte numa irmandade, no seio da qual comungava das dificuldades e exultava com as mesmas alegrias de que era feito o quotidiano.

O processo de socialização tinha um nexo comum, misturava-se no ritmo veloz dos horários, com todo o tempo preenchido. Nem os professores davam uma “branca”! e as práticas tradicionais iam acrescentando referências das quais sobressaía o braço da praxe, conjunto de regras que governavam as relações académicas no internato, cujas ilações de efeito pedagógico só a posteriori eram reconhecidas.
Engraxar botas ou sapatos, arear botões,  fazer as camas dos mais velhos eram parte menos exigente dos patamares desse ritual, sustentado em base hierárquica, respeitado e aceite. Globalmente, no seu exercício não cabiam distorções, não se aplicava alienadamente, nem como subterfúgio de frustrações. Era antes um culto de respeito pelos mais velhos, pela sua maior experiência, que nos incutia atitudes comportamentais adequadas.

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