É com enorme prazer e espírito de missão que, nesta fase marcante da encruzilhada histórica dos Pupilos do Exército, tenho o privilégio de proferir a Lição Inaugural do ano lectivo de 2009/2010.
O momento singular que o IMPE atravessa, rasgando novos caminhos para reafirmar e consolidar o seu posicionamento no horizonte educativo, a hora em que, após 34 anos de contínua permanência ao seu serviço, me preparo para outro rumo e o facto de fazer parte de uma família presente nesta escola ao longo de três gerações foram motivos decisivos para fundamentar esta soberana e honrosa oportunidade de o eleger como eixo daquela que é simultaneamente a minha primeira e última lição do ano lectivo que se inicia.
Perante tão honroso convite que outro tema de relevância lhe poderia estar adjacente que não fosse “a minha Casa”?!… Assim, pareceu-me dever intitulá-lo “Viver o IMPE”.
Despojada dos formalismos inerentes ao esquema estrutural de uma lição, consideraria mais apropriado que esta intervenção fosse vista como um simples acto comunicativo, cujo propósito é aduzir conhecimento sobre o IMPE, com base numa narrativa que decorre da interpretação pessoal dos ideais, tradições e valores, inscritos na sua matriz.
Havendo tanto para dizer e depois de ter presenciado, notáveis intervenções de oradores, regra geral, em torno das respectivas áreas de formação, o repto de falar dos Pupilos, desde logo pela diferente proposição, colocou dúvidas acerca do discurso.
Repartido entre o risco da vertigem ao escrever sobre o que é nosso ou incorrer na repetição de atributos conhecidos por aqueles que aqui partilharam tantos anos, centrei-me numa abordagem ontológica, acreditando que, na viagem pela incontornável mística dos Pupilos do Exército, os alunos, seus destinatários principais, poderão reflectir, descobrir ou saber algo mais e, reverem-se, eventualmente na galeria de retratos da sua vida quase centenária.
Necessariamente, muito ficará por dizer todavia, inspirado em Fernando Pessoa quando disse: “Sou do tamanho do que vejo, não sou do tamanho da minha altura!”, ancorei-me na esperança de que esta versão de histórias, estados de alma e traços particulares se não reduza à construção de um mundo próprio, ou redunde na mera sinopse desta Instituição tão grandiosa. Proponho antes o convite a um exercício mental, construído a partir da compreensão dos pedaços de história das gerações de que vou falar tendo como pano de fundo os transversais princípios, regras e valores que as nortearam.

Descobri os Pupilos muito cedo. Com ano e meio já me sentava numa pequenina cadeira à porta de casa dos meus avós, onde passava a maior parte do tempo, movido pela espera do irresistível som do tambor. Podia observar os alunos que marchavam em direcção à 2ª Secção onde se dava início às actividades lectivas do dia. Mas seria por volta dos 5 anos e meio que começava a absorver as histórias de meu pai, funcionário civil havia já alguns anos, que me aumentavam aquela curiosidade natural da “idade dos porquês”.
Sempre que possível corria para ver esses meninos, iguais, caminharem de forma organizada e com ar compenetrado, como se, à sua passagem, pudesse perscrutar algo mais para além das histórias que ouvira. “-Vamos para as aulas”, respondiam-me.

A minha repetida presença começara a fazer parte das pequenas distracções do seu percurso e, de vez em quando, no regresso à 1.ª Secção alguns dos mais velhos incitavam-me a acompanhar a formatura até a Portaria e lá ia eu, ao lado, marchando também. Aí chegado era, por vezes, mimoseado com mais ou menos leves toques nas orelhas a que não achava graça nenhuma. Na manhã seguinte quando passavam para as aulas aguardava-os uma recepção de pedras, exteriorização de um certo temperamento que os divertia desafiar-me.
Primeiros e efémeros episódios de um destino que esboçava o meu encontro com esta Escola. O tempo voa e a hora de me confrontar com o concurso de acesso ao 1º ano do Ciclo Geral Preparatório, hoje 5º ano de escolaridade, depressa chegaria.
Por essa altura, minha mãe também cá prestava serviço e ambos consideraram conveniente que realizasse provas de acesso ao Liceu Camões e à Escola Técnica Pedro de Santarém.

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